Sofá Arranhado Avatar

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As sandálias todas picotadas…

Ando com as minhas sandálias tipo Havaianas de andar por casa todas picotadas. A culpa é do Patanisco, esse gato maluco dado a obsessões que agora se diverte a agrafar os dentes na borracha. Chegou ao ponto do sandalame se estar a desintegrar nas extremidades pelo que tive de recortar uma nova silhueta de contorno com uma tesoura, tipo faça-você-mesmo. Não ficou pior. Acho que as sandálias ganharam para aí umas quatro semanas de vida…

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Os fantoches da minha mãe (3/3). ✄O Meu Estaminé

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Os fantoches da minha mãe (2/3). ✄O Meu Estaminé

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Vamos fazer brinquedos com as nossas próprias mãos. Estes são os fantoches da minha mãe (1/3). ✄O Meu Estaminé

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Cinza

Viver com animais é também aprender a vê-los partir, porque o tempo deles não é o nosso tempo. Há dois anos perdemos a Cinza mas ainda hoje ela vive na memória dos nossos sentidos. Por vezes colocava-se no meio de nós dois e ficava a balançar, ora para um, ora para outro, partilhando beijinhos ásperos e “turrinhas”. Cinza, a gata que dava beijos e abraços e que viveu na ilusão de ser uma pessoa igual a nós. Este texto foi inicialmente publicado no blogue A Barriga de um Arquitecto em 2009-09-25.

Imagino agora o que ela terá pensado, por detrás daqueles olhos verdes, ao ver-me invadir o território sagrado da sua vida partilhada com aquela que por certo tinha como sua única companheira. Quem será este? Com que intenções se apodera do nosso lugar, do nosso tempo de aconchego, quando a noite cai e o mundo pertence apenas a nós duas? Dediquei à pequena Cinza o mesmo desprezo que ela me dirigia. Não por desgosto ou falta de afeição. Pelo contrário, porque nestas coisas dos gatos devemos sempre respeitar os seus tempos e os seus espaços.

Passaram por certo duas semanas. Pensei que estaria para mim perdida aquela gata que a tantas doçuras se entregava pela mulher com quem um dia eu haveria de casar. E estava eu sentado, rodeado sei lá que afazeres, quando ela chegou por cima de tudo como quem atravessa o mundo. Assim me dedicou o seu primeiro beijo áspero, delicioso como se nada fosse, a maravilhosa Cinza.

Sabe quem alguma vez conviveu com gatos ou cães que todos são diferentes. Não apenas no temperamento mas no grau de evolução intelectual. Sim, eu disse intelectual. A Cinza foi, e porventura sempre será, a gata mais inteligente que eu já vi. Assim lhe dedicámos o cognome de “gato-pessoa”, pelo brilho, pelo afecto profundo, pela carência, pelo ciúme, por tudo aquilo que fez dela a mais luminosa presença da nossa casa durante os anos que agora julgaremos sempre tão curtos. E, no entanto, se as probabilidades mandassem, a Cinza já devia ter morrido há muito.

Quando a tristeza se apoderou das nossas vidas, no tempo suspenso de uma frágil gravidez perdida, foi ela quem sentiu mais fundo a dor que nos atingiu. Acolheu-a como sua, deixou de comer e assim se abeirou da morte. Duas novas palavras entraram na nossa casa: lipidose hepática. O estado clínico da Cinza disparava em valores dez vezes para lá de todas as esperanças. Diversos dias de internamento deixavam-na agora prostrada para a encontrarmos, mais um dia passado, à beira do fim. Podíamos ler-lhe nos olhos: a Cinza desistiu de viver. Se aqui fica, morre. Falámos com os veterinários explicando porque tínhamos de levá-la para casa. Os médicos alertaram-nos para a complexidade do tratamento, com muita medicação e alimentação regular, por um tubo esofágico, de três em três horas, sem excepção. Sim, numa situação normal, levá-la para casa seria uma loucura. Mas nós não somos pessoas normais.

A Cinza viveu um mês em cima da nossa cama. Uma capa impermeável esticada, com cobertas por cima. Uma caixa de areia ao fundo, assim mesmo. Quase não se movia e a nada reagia. Mas foi sobrevivendo, dia-a-dia, àquela rotina desesperada. De quando em vez a indisposição sobrevinha para se perder em espasmos. Ficava desfeita. E a rotina recomeçava mais uma vez. A pouco e pouco a medicação, a comida e o amor foram curando aquele frágil fígado doente. E regressou um dia, como se nada fosse, para o meio de nós, cumprimentando-nos com um novo primeiro beijo. Para mais uma vida.

A Cinza deixou este mundo, suspensa nas minhas mãos, no Domingo passado, juntando-se à nossa pequena cadela branca que morreu há cerca de dois meses. Todas as vidas começam encharcadas em dor e talvez uma nova vida tenha começado ali mesmo. Uma vida de que a Cinza já não fará parte, mas em que a lembrança dos seus gestos, dos seus abraços, dos seus beijos, do seu cheiro, fará sempre parte de nós. Possam todos conhecer, uma vez na vida, a bênção da devoção mais pura como a da nossa pequena Cinza, a gata mais extraordinária que alguma vez existiu.

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Amélie

Encontrámos a pequena caniche anã abandonada em pleno Inverno, escondida numas obras, ao fim do dia. Estava tão suja que parecia literalmente um trapo velho, o pêlo crescido e espesso de tanta sujidade. Pior, uma pata dianteira partida abanava de um lado para o outro e fazia indiciar um futuro sombrio. Latiu poucas vezes quando nos aproximámos mas deixou-se pegar envolvida num pequeno cobertor.

A ida ao veterinário correu bem. Umas análises mostraram que por detrás daquele aspecto desanimador estava uma cadelinha cheia de vontade de viver, apenas um pouco malnutrida. Mais boas notícias vieram da observação da pata dianteira; a recuperação estava à distância de uma cirurgia bastante simples.

Chamámos-lhe Amélie e acabou por viver connosco durante longos meses. Um corte de cabelo, umas vacinas em dia e uma cirurgia depois, e a pequena miniatura começou o seu longo processo de recuperação. Durante mais de um mês viveu praticamente fechada numa gaiola de um metro quadrado: ordens do médico. Não podia andar muito nem saltar porque poderia danificar ainda mais a pata, segura apenas por um reforço metálico. Aos serões passava as horas ao nosso colo, no sofá, onde se aninhava muito cuidadosamente. Tentávamos mimá-la o mais possível para compensar os seus dias difíceis.

Passado aquele período mais crítico começou a poder andar em espaços maiores e a aventurar-se para descobrir o novo território que lhe estava disponível. A Amélie estava cada vez melhor. Durante esse tempo fomos abençoados com o aparecimento de uma família fantástica que adoptou a nossa menina e a acompanhou durante os meses de recuperação em que esteve connosco. A pequena caniche partiu depois para a sua nova casa onde tem uma vida feliz e se tornou o centro de todas as atenções. E nós, cheios de saudades, também estamos felizes pela nossa menina e pelo seu fabuloso destino.

Adenda: Uma versão deste texto foi publicada inicialmente no blogue A Barriga de um Arquitecto em 2006-08-11.

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O cão com três patas

Ele estava num parque de estacionamento escondido debaixo de um carro. A minha mulher chegou primeiro e chamou-o. O cão não se mexeu e ela aproximou-se um pouco mais. Um olhar foi quanto bastou para perceber que a barriga do cão estava manchada de sangue. Algo estava mal.

Foi a minha vez de me aproximar e ver o que se passava. Era um cão castanho, pequeno, que não devia ter mais de dois meses. Estava encolhido sobre o corpo, muito estático. Falei baixinho e toquei-lhe muito lentamente. Ele não reagiu e deixou-me ver tudo o que queria ver. Oculto na mancha vermelha em que se encolhia podia agora ver que uma das suas patas traseiras estava desfeita, gravemente partida. O cheiro metálico do sangue fazia perceber que já devia estar ali há algum tempo.

Olhei de novo para a cara do cão, olhos quase fechados, imóvel. Cheguei a mão à sua testa e ele fez o único gesto de que foi capaz, avançando a cabeça à palma da minha mão aberta, e depois suspirou. Parecia que no meio da dor que estava certamente a sentir, aquele era o seu último conforto antes do fim.

O veterinário foi muito claro. O cão tinha múltiplas fracturas, bastante profundas, numa pata traseira. Pior, já estaria assim há um ou mesmo dois dias e a perna estava a começar a gangrenar. Se a infecção continuasse iria morrer. A única solução era amputar a pata. Porque iria ser um animal que precisaria de cuidados e atenção especial o médico só faria a operação se nos responsabilizássemos por cuidar dele, caso contrário a solução seria terminar definitivamente com o seu sofrimento. A minha mulher não teve dúvidas em querer ficar com ele, eu confesso que hesitei. Decidi que tomaríamos conta do cão até arranjar alguém que o adoptasse, e a operação fez-se.

Os cães são animais extraordinários. Talvez a sua psicologia seja mais simples, talvez só pensem “estou bem” ou “estou mal”. No dia seguinte, amputado da pata traseira, o seu corpo anteriormente infectado de bactérias começava a libertar-se. A transformação foi como da noite para o dia. Quando o fomos buscar lá andava o magricela pelo chão, de pontos à mostra, a saltitar e a abanar a cauda como se nada se tivesse passado. O resto da história é fácil de adivinhar. Dois anos depois, eu e a minha mulher somos os felizes donos do Moby, o cão com três patas, crescido, viçoso, que corre, sobe e desce escadas como qualquer outro. Um cão com três patas é um sobrevivente. A prova, de que a vida é difícil. E no entanto, por vezes, saltando para alcançar um biscoito ou correndo a brincar com outro cão, torna-se gracioso como se uma quarta pata subitamente invisível aparecesse novamente. E faz-me lembrar, quando a vida parece afundar-se em problemas, que com esperança e alegria de viver todas as dificuldades se ultrapassam, e tudo se conquista. DC

Adenda: Este texto foi inicialmente publicado no blogue A Barriga de um Arquitecto em 2004-03-18. O Moby tem agora dez anos e continua connosco.

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